Postagens

Fadada Memória

Cá assentado no barro vermelho Nas vigorosas vigas não desfeitas Olho o passado dantes, eu nem nasci Não existo Meu pai corre no terreiro Sobe sorrateiro no mourão Quase agarra a asa branca De casa, de criação Meu avô, seu suspiro cansado Debaixo do alpendre, enfadado Já enfermo, canta a toada Sobre Zé Garcia, herói afamado Da poeira que sobe carmim Minhas lágrimas sangue são Do menino alegre, cabelo afarofado Pisoteado pelo boi barbatão O cheiro da cozinha me alcança Café, foligem, e avó A risada macia e triste As estripulias do menor O riacho hoje é seco Mas ouço seu escorregar E o bálido distante da cria Sem lhe poder transpassar É o tempo escorrendo tosco O sol já vai se deitar Tenho de ir-me embora Meus fantasmas deixar Pois é noite de lua A seresta a pouco começa Farão, pois, fogo no começo da terra E água no terreiro ...

Fiz para você

Uma porção de escolhas que não pude assumir Canções e louvores que não vou admitir Qualquer coisa, apenas por lhe ver sorrir E peço... Me guarde para ti.

Despedida

Perdi pedaços ao longo da jornada, tão essenciais quanto o próprio ar, perco hoje , nessa dolorosa despedida, outro, este com sorriso maroto e vã crença em estrelas que talvez estejam mortas,  o que vemos em nosso ceu pode ser apenas a sua lembrança. Estrelas morrem Michelle, essa é a lei, estamos agora separando partes que duraram menos que qualquer outras, você segue e leva o sol que me aqueceu por esses dias contados e mesmo assim infinitos. São só palavras eu sei, mas é tudo que sei fazer, escrever minhas lágrimas em um papel surrado e esquecer.

Sofrer

Sobre ela, a pedra mais linda moldada na jóia mais cara, mas eu a perdi, um tolo e débil poeta que esmagou a flor e riu!

Dor absoluta

Eu sinto que morro todo dia apenas por não te ver Levanto sempre com o sol e com sol me deito Não procuro amigos, sou um recipiente vazio Não existe nada em mim além da minha vertiginosa camada de dor e desespero Quando, da sacada do meu quarto, o sol se esconde, eu me deito Cubro meu corpo e cabeça em lençóis de linho, vegeto Olho por minhas memorias distorcidas tudo o que já foi Nessa agonia calma as horas passam e eu me disperso nas memorias A noite vai morrendo como um velho tubérculo nas garras do sol Se afogando em sua própria escuridão Eu me encontro vendo o avanço gradual do sol em seu domínio particular E meus escritos se interrompem apenas para o chá Sua fria consistência me acalma, mas a segunda xícara nunca é servida Olho através dos secos vidros meu reflexo e lembro-me taciturno a tua volta É dolorido quando não adormeço e caminho pouco convicto Enjaulado em meu próprio quarto sentindo falta de um perfume Meus olhos secam e as luzes pela janela os ferem...

Sobre o fado

Estou cheia! Cheia de noites mal dormidas Cheia de conversas vazias Cheia de pessoas falsas Cheia de amores de vidro Cheia de compromissos furados Cheia de promessas quebradas Cheia de vazios incalculáveis

Corona

Eu te desejo que você seja Você veja quando alguém te faz bem Quando for existir e pensar Sempre lembrar do que mereceu Teu mal é gêmeo do meu Se chama solidão Desgosta, mata e revive Sobrevive na mais densa escuridão Teu solo é esse que piso Teu sonho é esse que é meu também Mas não se deixe, não abandone É assim meia vida e além.