Fadada Memória
Cá assentado no barro vermelho
Nas vigorosas vigas não desfeitas
Olho o passado dantes, eu nem nasci
Não existo
Meu pai corre no terreiro
Sobe sorrateiro no mourão
Quase agarra a asa branca
De casa, de criação
Meu avô, seu suspiro cansado
Debaixo do alpendre, enfadado
Já enfermo, canta a toada
Sobre Zé Garcia, herói afamado
Da poeira que sobe carmim
Minhas lágrimas sangue são
Do menino alegre, cabelo afarofado
Pisoteado pelo boi barbatão
O cheiro da cozinha me alcança
Café, foligem, e avó
A risada macia e triste
As estripulias do menor
O riacho hoje é seco
Mas ouço seu escorregar
E o bálido distante da cria
Sem lhe poder transpassar
É o tempo escorrendo tosco
O sol já vai se deitar
Tenho de ir-me embora
Meus fantasmas deixar
Pois é noite de lua
A seresta a pouco começa
Farão, pois, fogo no começo da terra
E água no terreiro ão de jogar
Mas esse tempo foi embora
Eu existo, vovô não mais
Meus pais em apartamento moram
Vovó, lar não tem mais
Chorei toda minha lágrima
De saudade mui penosa
Saudade do passado sem fim
Muito, muito antes de mim
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