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Angústia

Eu verso a angústia que toma meu peito E saio sem rumo a deriva no mar O mar de pessoas que se aglomeram Meramente vazias sem nada pra dar É frio la fora, no calor escaldante Tão escuro no sol  que não se pode olha Me sinto estrangeiro aqui não pertenço Preciso do lar para enfim descansar No mundo assim eu só sei de mim Que tudo que vê não se pode aceitar Que nada em esforço continuo é inútil Não há uma força para esse curso mudar.

Pesadelos

É noite de novo e fico a pensar Nos terrores noturnos, lenta tormenta A muito não escrevo Estou inquieto pesado, sangrado e só Não durmo tranquilo Quando o sono se achega A cabeça pesada de sono e de Culpa Uma vaga desculpa Que não cai melhor No fim tudo é breve Eu temo por nós Cada pesadelo de um dia final Sangrar sobre as dores Um triste festival

Verso Corrido

Cheirinho de chuva de mato molhado O céu estrelado Falando de nós O riacho correndo A vida serena Mas falta a partilha Aqui estou só O sertão tão chovido E eu tão sofrido Aqui haja dó Casa de vó é serena e bonita Uma cigarra que canta  Alegre pra nós A brisa do inverno se aconchegando E a solidão consolidando  A saudade no pó Tarde da noite versando apressada Com medo e magoada O fim é para nós

Através da perspectiva

A vida é breve e insignificante, digo isso pois me deparo com uma casa que se organiza para um velório, as pessoas dentro, penso eu, devem estar buscando motivo para continuar enquanto todos, inclusive eu, nos mostramos indiferentes a toda a dor que recaiu espessamente sobre aquela família. Perdi uma quantidade significativa de pessoas para saber que em algum lugar daquela casa há alguém agarrada a um objeto que lembra-lhe a pessoa e chora copiosamente enquanto sente o ar quei mar seu ser de dentro pra fora. Mas eis que essa sou eu, pensando demais, supondo demais, ignorando o fato de pode ser alguém já de idade que pacificamente fez sua passagem deixando a família numa resignação triste, porém saudável. Mas vivemos por isso, pela tragicidade da vida, pelos "de repente"s pelo que julgamos serem sentimentos tão fortes que preenchem o vazio das almas, sem essa esperança seriamos nós, mortos-vivos despropósi...

Tão breve quanto uma aula de violão

Ele me olhava por sobre o balcão Eu sorrio pois sou fatalmente fraca em relação a ele Seu cavanhaque e a pele morena me ganharam instantâneamente É o show particular naquele início de aula só me fizeram ainda mais boba Fico sentada no pátio até o inicio do período só para vê-lo passar É suspiro quando imagino as coisas que não vão acontecer Isso se repete semana a semana como um dejavú Tão breve quanto uma aula de violão

Manhã

Sonhos estranhos Eles me rondam Retalhando homens Revivendo amores Me dando tremores Resgando-me com esperanças vãs Então escrevo Pois é manhã e a jornada recomeça Vivo na estrada Nela irei morrer

Meia noite

A noite escrita escorre plácida como um fio de agua escorre pelo chão, estou insone outra vez e penso em mil coisas de cada vez, minha cabeça indo a milhas de distância em um mundo diferente desse. A meia-noite vem e passa, uma velha carrancuda que me diz que o sol é o olho de Deus, e eu não mereço a Deus. Os sons são apenas meu raquítico ventilador é a respiração irregular vinda da cama a cima... As coisas se amontoan enquanto escrevo no meu peito sentimentos mortos jazem em távolas de granito, eu sinto sua consistência fria e pegajosa, mas estão mortos e não podem mais se manifestar. Eu digo a mim mesma que quero parar e que quero mudar mas não quero, sou esse morcego empoleirado que poucos notam e gosto de assim ser, não me convém as dores de parto, não me ilude a segurança do lar, não me devora o amor consumado, sou bicho, sou animal enjaulado.